Palestras em Rosário e Mendonza
Amigos, quando ouvimos algo novo, nós tendemos a descartá-lo sem pensar. E como venho da Índia, as pessoas tendem a imaginar que trago para elas um misticismo oriental que não tem valor na vida diária. Por favor, ouçam esta palestra sem preconceitos e não a desconsiderem me chamando de místico, anarquista, comunista ou por qualquer outro nome. Se vocês tiverem a gentileza de ouvir sem preconceitos, mas com senso crítico, então verão que o que tenho a dizer possui um valor fundamental. É muito difícil ser verdadeiramente crítico porque estamos tão acostumados a examinar ideias e experiências através do véu da oposição e do preconceito que acabamos por distorcer a clareza da compreensão. Se vocês são cristãos, como a maioria de vocês é, certamente irão examinar o que eu digo através do viés específico que sua religião lhes deu. Ou se você pertence a algum partido político, então naturalmente você considerará o que eu vou dizer através da perspectiva desse partido em particular. Não conseguiremos resolver os problemas humanos através de algum viés, seja de um sistema, partido ou religião.
Em todo o mundo existe sofrimento constante que parece não ter fim. Existe a exploração de uma classe por outra. Vemos o imperialismo com todas as suas estupidezes, guerras e crueldades decorrentes dos interesses estabelecidos, sejam ideias, crenças ou poder. E há o problema da morte e a busca pela felicidade e certeza em outro mundo. Uma das razões fundamentais pelas quais você pertence a uma religião ou a uma seita religiosa é a promessa de um lugar seguro no além.
Aqueles de nós que se interessam pela vida de forma ativa e inteligente veem tudo isso. E desejando uma mudança fundamental, nós pensamos que deveria haver um movimento de massa. Agora, para criar um movimento verdadeiramente coletivo é necessário o despertar do indivíduo. Eu estou interessado nesse despertar. Se cada indivíduo despertar em si mesmo essa verdadeira inteligência, então promoverá o bem-estar coletivo, sem exploração e crueldade. Enquanto a realização inteligente do indivíduo for impedida, haverá caos, sofrimento e crueldade. Se você for levado a cooperar pelo medo, então jamais poderá haver a realização individual. Portanto, eu não estou interessado em criar uma nova organização, partido ou em oferecer uma nova alternativa, mas sim despertar essa inteligência que, sozinha, pode resolver as muitas misérias e tristezas da humanidade.
Agora, a maioria de nós não somos indivíduos, mas meramente a expressão de um sistema coletivo de tradições, medos e ideais. Só pode haver verdadeira individualidade quando cada um, através do conflito e do sofrimento, discerne o profundo significado do ambiente em que está inserido. Se você é apenas a expressão do coletivo, você não é mais um indivíduo. Mas se você compreender todo o significado da consciência coletiva que agora domina o mundo, então você começará a despertar aquela inteligência que se torna a verdadeira expressão e realização do indivíduo.
Nós somos agora apenas a expressão, o resultado do ambiente passado e presente. Somos o resultado da compulsão e da imposição, moldados segundo um padrão específico, o padrão da tradição, de certos valores e crenças, do medo e da autoridade. Por conveniência, vamos dividir esse molde que nos aprisiona em interno e externo, religioso e econômico, mas na realidade tal divisão não existe.
A religião nada mais é do que um sistema organizado de crenças, baseada no medo e no desejo de segurança. Onde há interesse próprio, o desejo de segurança, há necessariamente medo. E através da religião vocês buscam o que é chamado de imortalidade, uma segurança no além, e aqueles que lhes asseguram e prometem essa imortalidade tornam-se seus guias, seus mestres e autoridades. Portanto, a partir do seu próprio desejo de perpetuar o egoísmo, você cria exploradores.
Quando a mente busca segurança através da imortalidade, ela cria a autoridade, e essa autoridade se torna a causa constante do medo e da opressão. Portanto, para guiar e amparar você, existem ideais, crenças, dogmas e credos, dos quais nasce o que chamamos de religião. Para atender às suas necessidades ilusórias, geradas pelo medo, existem sacerdotes, que se tornam seus exploradores. Assim, temos religiões com seus interesses estabelecidos, medo, opressão e exploração, que subjugam o homem e impedem o verdadeiro despertar da inteligência e a realização do indivíduo. As religiões também separam o homem do homem. Nesse molde, cada indivíduo é enquadrado, consciente ou inconscientemente, sutil ou grosseiramente.
Externamente, nós criamos um sistema de segurança individual baseado na exploração. Através da ganância e do sistema de família, nós criamos a distinção de classes, cultivamos a doença do nacionalismo, do imperialismo e daquela grande estupidez que é a guerra.
Existe esse molde, esse ambiente do qual quase todos nós não temos consciência, pois ele faz parte de nós; ele é a própria expressão dos nossos desejos, medos e esperanças. Enquanto vocês se conformarem a esse sistema, seja de forma consciente ou inconsciente, vocês não são indivíduos. A verdadeira individualidade só pode surgir quando você começa a questionar esse molde de tradição, valores e ideais. Você só consegue compreender seu verdadeiro significado quando está em conflito, não de outro modo. Com todo o seu ser, você deve se voltar para o ambiente, o que então cria conflito, sofrimento, e disso surge a clareza da compreensão.
Como pode haver realização individual se você não tem consciência dessa máquina, desse molde que o prende, o molda, o guia? Como pode haver completude, felicidade quando esses valores inquestionáveis estão continuamente impedindo e pervertendo sua plena compreensão? Somente quando vocês, como indivíduos, se tornarem totalmente conscientes dessa prisão e se libertarem dela é que poderá haver verdadeira realização. Somente a inteligência pode resolver o sofrimento e a miséria da humanidade.
Interrogante: É possível viver sem nenhum tipo de preconceito? Você mesmo não tem preconceito contra organizações religiosas e espirituais?
Krishnamurti: Não acho que eu tenha preconceito contra organizações religiosas ou espirituais. Eu pertenci a elas, e vi sua completa estupidez e suas formas de exploração. Não há ilusão alguma em relação a elas, portanto não há preconceito.
Isso nos leva para outro ponto: pode o homem viver sem ilusões? Em um mundo onde há muito sofrimento, muita aflição mental e emocional, onde existe tanta crueldade e exploração implacáveis, pode-se viver sem nenhum meio de escapar desse horror? Onde há desejo de escapar, há a criação de uma ilusão na qual se busca refúgio. Se em seu trabalho, se em sua vida não há realização, então há uma fuga para alguma ideia romântica ou ilusão. Portanto, quando há um conflito entre você e a vida, há preconceitos e ilusões que lhe oferecem uma fuga. Pode ser uma fuga através da religião, da simples atividade ou sensação.
Se você compreender profundamente os obstáculos que causam conflito entre você e a vida e, portanto, se libertar deles, então a mente não precisará de ilusões. Seu interesse deve ser descobrir por si mesmo se você está fugindo da vida, não julgar a mim ou a outra pessoa. A fuga destrói o funcionamento inteligente da mente. A ilusão e o preconceito cessam quando, através do conflito, a mente se liberta de todas as fugas sutis que ela estabeleceu em busca de autodefesa.
Interrogante: A maioria das discussões em torno de suas ideias está sendo provocada pelo seu uso frequente da palavra “exploração”. Você pode nos explicar exatamente o que você quer dizer com exploração?
Krishnamurti: Onde há medo, que é o resultado da busca por segurança, há exploração. Libertar a mente do medo é uma das coisas mais difíceis de se fazer. As pessoas dizem com muita facilidade que não têm medo; mas se realmente quiserem descobrir se estão livres do medo, elas precisam se testar na ação. Elas precisam compreender toda a estrutura da tradição e dos valores, e ao se separarem dela, elas criarão conflito, e nesse conflito descobrirão se são livres. Agora, a maioria de nós age em conformidade com certos valores estabelecidos. Nós não conhecemos seu verdadeiro significado. Se você deseja descobrir a harmonia do seu ser, saia dessa prisão; e assim você perceberá os muitos medos sutis que escravizam sua mente. Quando a mente se libertar do medo, não haverá exploração, crueldade e sofrimento.
Interrogante: Que conselho você pode dar àqueles que estão ansiosos para compreender seus ensinamentos?
Krishnamurti: Se você começar a viver e, assim, compreender a vida, então não poderá deixar de captar a importância do que estou ensinando. Vocês não veem, senhores, que se vocês seguirem alguém, não importa quem seja, estarão criando mais compulsão, limitação e, portanto, destruindo a inteligência, a verdadeira realização? A Verdade não pertence a ninguém. Se, através da ação, a mente se liberta da limitação do medo e, portanto, da autoridade, da compulsão, então surge a compreensão daquilo que é a Verdade.
Interrogante: Você diz que os ideais são uma barreira para a compreensão da vida. Como isso é possível? Certamente, um homem sem ideais não passa de um selvagem.
Krishnamurti: Não vamos considerar quem é e quem não é selvagem, pois neste mundo isso é difícil de determinar. (Risos) Em vez disso, vamos considerar se os ideais são necessários para a plenitude e uma compreensão rica. Eu digo que os ideais e as crenças, fundamentalmente, impedem o homem de viver plenamente.
Os ideais parecem necessários quando a vida é caótica, repleta de sofrimento e cruel. Preso nesse tumulto, você se apega a ideais como uma forma de fuga, como uma necessidade para atravessar o mar da confusão, e por isso eles são falsos e enganosos. Quando você não compreende o sofrimento e a agonia presentes, você escapa para um ideal. Quando você não ama o seu próximo, você fala sobre o ideal de fraternidade. Da mesma forma, quando você fala do ideal de paz, você não está verdadeiramente discernindo a causa que cria a separação, a guerra com todas as suas brutalidades e estupidezes. Nossas mentes estão tão mutiladas, tão sobrecarregadas de ideais que não conseguimos enxergar a realidade com clareza. Portanto, liberte a mente dos seus ideais, que nada mais são do que esperanças frustradas; só então ela será capaz de discernir o presente com todo o seu significado. Em vez de fugir, aja no presente. Essa ação revela uma beleza que nenhum ideal consegue mostrar.
Interrogante: O que você quer dizer exatamente com “ação incompleta”? Você pode nos dar exemplos de tais ações?
Krishnamurti: Cada um de nós é criado em um determinado condicionamento. Esse condicionamento é apenas memória. Essas memórias impedem continuamente a completude da ação. Ou seja, se você foi criado em uma determinada tradição, essa memória impede a compreensão completa da experiência ou da ação. A memória se desenvolve e se torna uma limitação cada vez maior, um obstáculo, se separando do movimento da vida. Onde há ação incompleta não há realização, o que gera medo. A partir daí surge a busca por segurança no além. A completude da ação é o movimento contínuo ou o fluxo da vida, da realidade sem a limitação da memória autoprotetora.
Interrogante: Ocasionalmente, um indivíduo rico que perde seu dinheiro comete suicídio. Já que a riqueza não parece trazer felicidade duradoura, o que é preciso fazer para ser realmente feliz?
Krishnamurti: As pessoas que acumulam riqueza dependem do poder que o dinheiro proporciona para sua felicidade. Quando esse poder lhes é retirado, elas se deparam com o seu próprio vazio absoluto. Enquanto houver busca por poder, seja através do dinheiro ou da virtude, haverá vazio. E para esse vazio não há remédio, porque o poder em si é uma ilusão, nasce da limitação egoísta, do medo. A compreensão só pode vir discernindo a falsidade do poder em si, e isso exige um estado de alerta constante da mente, não uma renúncia após a acumulação. Se existe esse sentimento de ganância que destrói o amor e a caridade, então há um vazio, uma superficialidade, uma frustração da vida. Nisso não há realização.
Interrogante: Alguns dos seus seguidores dizem que você é o novo Messias. Eu gostaria de saber se você é um impostor, vivendo da reputação que os outros criaram para você, ou se você realmente tem o interesse pela humanidade no coração e é capaz de dar uma contribuição construtiva ao pensamento humano.
Krishnamurti: Eu não acho que importe muito o que os outros dizem ou deixam de dizer a meu respeito. Se vocês forem meros seguidores, então não poderão conhecer a rica plenitude da vida. O que importa é que você, sem ser influenciado por nenhuma autoridade ou opinião, descubra por si mesmo se o que eu digo tem algum significado profundo. Algumas pessoas, meramente afirmando que tem, ajudam a criar a gaiola vazia da opinião que limita os desatentos. E outros conseguem facilmente criar uma opinião oposta ao declarar que o que eu digo é falso e impraticável e, portanto, prendem o inconsciente em uma rede de palavras.
O interrogante pergunta se estou vivendo da reputação que os outros construíram para mim. Por favor, tenha certeza que não. Essa ideia de viver preso ao passado destrói a inteligência. A maioria das pessoas, depois de atingir um certo patamar, acomoda-se em suas conquistas e, portanto, decai lentamente. E como elas têm esse hábito fatal, elas tentam me levar para sua própria ilusão.
Para mim, viver é a completude da ação, que tem sua própria beleza e que não busca recompensa nem foge do sofrimento. Para descobrir a verdade do que digo, você, como indivíduo, terá que experimentar e descobrir por si mesmo e não confiar em opiniões.
Se sou ou não um impostor, cabe a mim descobrir, não a você julgar. Como você pode julgar se eu sou um impostor ou não? Você só pode medir por meio de um padrão, e todos os padrões são limitados.
Julgar o outro é fundamentalmente errado. Eu sei, sem qualquer medo, ilusão ou autoengano, que aquilo que digo e vivo nasce da vida. Não é através do desejo de julgar, mas somente por meio do conflito que se pode despertar a inteligência. É somente em meio ao conflito e ao sofrimento que se pode compreender o que é verdadeiro. Mas quando você começa a sofrer, você deve permanecer intensamente consciente, caso contrário, você criará uma fuga para uma ilusão. Agora, o círculo vicioso de sofrimento e fuga continuará até que você comece a perceber a inutilidade de fugir. Só então haverá inteligência, que sozinha poderá resolver os diversos problemas humanos.
Interrogante: Você diz que todos aqueles que pertencem a uma religião ou que têm uma crença são escravizados pelo medo. A pessoa está livre do medo pelo simples fato de não pertencer a nenhuma religião? Você, que não pertence a nenhuma religião, está realmente livre do medo ou está apenas pregando uma teoria?
Krishnamurti: Não estou pregando mera teoria. Eu estou falando a partir da plenitude da compreensão. Não pertencer a nenhuma religião certamente não significa estar livre do medo. O medo é tão sutil, tão rápido, tão astuto que se esconde em muitos lugares. Para acabar com o medo é preciso um desejo intenso e ardente de desvendá-lo, o que significa estar disposto a abrir mão completamente de qualquer interesse próprio. Mas você quer estar seguro, tanto aqui quanto no além. Assim, desejando segurança, você cultiva o medo; e tendo medo, você tenta escapar através da ilusão da religião, dos ideais, das sensações e da atividade. Enquanto houver medo, que nasce de desejos de autoproteção, a mente ficará presa na rede de muitas ilusões. Um homem que realmente deseja descobrir a raiz do medo e, portanto, se libertar dele, deve tomar consciência do motivo e do propósito de sua ação. Essa consciência, se for intensa, destruirá a causa do medo.
Interrogante: Quais são as características do nacionalismo que você chama de estupidezes? Todas as formas de nacionalismo são más ou apenas algumas? Não é maravilhoso que seu país esteja lutando para se libertar do jugo da Inglaterra? Por que você não luta pela independência do seu país?
Krishnamurti: Amar tudo o que é belo em um país é normal e natural, mas quando esse amor é usado por exploradores em benefício próprio, isso se chama nacionalismo. O nacionalismo se transforma em imperialismo, e então os mais fortes dividem e exploram os mais fracos com a Bíblia em uma mão e a baioneta na outra. O mundo está dominado pelo espírito de exploração astuta e implacável, do qual resulta a guerra. Esse espírito de nacionalismo é a maior estupidez.
Todo indivíduo deve ser livre para viver plenamente, completamente. Enquanto cada um tentar libertar seu próprio país e não o homem, sempre haverá ódio étnico, divisões entre as pessoas e classes. Os problemas da humanidade devem ser resolvidos como um todo, não de forma restrita a países ou povos.
Interrogante: O que você pensa dos seus inimigos, os sacerdotes, e dos interesses estabelecidos que na Argentina impediram a transmissão das suas palestras?
Krishnamurti: Considerar alguém como inimigo é uma grande tolice. Ou se compreende e, portanto, ajuda ou não se compreende e, portanto, impede. A difusão daquilo que é inteligente só pode ser dificultada pela estupidez. Cada um de vocês possui interesses pessoais aos quais se apegam e que, por meio de ações e pensamentos contínuos, estão sendo ampliados. Se alguém ataca um interesse específico seu, sua resposta imediata é ficar na defensiva e retaliar. Um homem que tem algo a guardar, algo a proteger vive sempre com medo e, portanto, age de forma muito cruel e irrefletida; mas um homem que realmente não tem nada a perder, porque não acumulou nada, não tem medo; ele vive plenamente, de forma verdadeiramente realizada.
Interrogante: A experiência tem algum valor?
Krishnamurti: O que acontece quando há experiência? Ela deixa uma marca na mente, que nós chamamos de memória. Com essa marca, com essa memória, nós encontramos a próxima experiência, e a partir dessa experiência, nós acumulamos mais memória, aumentando a marca. Cada experiência deixa sua marca na mente. Agora, essas camadas coletivas de memórias são essencialmente baseadas no desejo de se proteger contra o sofrimento. Ou seja, você chega à experiência já preparado, já protegido por suas memórias passadas. Você não está vivendo essa experiência completamente, mas está apenas aprendendo a se proteger dela, da vida. A experiência se torna sem valor para o homem que apenas a utiliza como meio de autodefesa contra a vida. Mas se você vive uma experiência completamente, integralmente, sem esse desejo de autoproteção, então ela não destrói o discernimento, ela revela as grandes alturas e profundezas da vida.
Agora, usar a experiência como meio de progresso, ou seja, aumentar os muros da autoproteção, é geralmente chamado de evolução. Você acredita que, através do tempo, essa memória, esse registro de autoproteção, pode alcançar a Verdade ou perfeição ou Deus. Não pode. A verdadeira experiência consiste em derrubar essas barreiras da autoproteção e libertar a mente, a consciência, das marcas que impedem o discernimento, a realização.
Interrogante: Que tipo de ação você acha que seria mais útil para o mundo?
Krishnamurti: Uma ação que nasce sem medo e, portanto, da inteligência, é inerentemente verdadeira. Se sua ação for baseada no medo, na autoridade, então tal ação certamente criará caos e confusão. Ao libertar a ação de todo o medo, há amor, inteligência.
Interrogante: O problema sexual não é uma verdadeira escravidão para o homem?
Krishnamurti: Se lidarmos com esse problema apenas superficialmente, então não conseguiremos encontrar uma solução para ele. Emocionalmente e mentalmente somos, na maior parte do tempo, frustrados pela autoridade e pelo medo. Nosso trabalho, que deveria ser a expressão da nossa realização, se tornou mecânico e cansativo. Somos meramente treinados para nos encaixarmos em um sistema e, portanto, surge a frustração, o vazio. Somos forçados a escolher uma determinada profissão por necessidade econômica, o que nos impede de nos expressarmos verdadeiramente. Através do medo, nos forçamos a aceitar as muitas superstições e ilusões da religião. Nossos desejos, frustrados e limitados, tentam se expressar através do sexo, que assim se torna um problema avassalador. Como tentamos resolvê-lo exclusivamente, à parte dos demais problemas humanos, nós não conseguimos encontrar solução para ele. Como destruímos o amor através da possessividade, através da mera sensação, o sexo se tornou um problema. Onde há amor, sem o sentido de possessividade ou apego, o sexo não pode se tornar um problema.
Interrogante: Por que existem opressores e oprimidos, ricos e pobres, pessoas boas e más?
Krishnamurti: Existem porque você permite. O opressor existe porque você está disposto a se submeter à opressão e também porque está ansioso para oprimir o outro. Você pensa que, ficando rico, será feliz e, assim, cria os pobres. Através das suas ações, você está criando o opressor e o oprimido, o rico e o pobre, e apoiando as condições que produzem o chamado mal, o criminoso. Se vocês, como indivíduos, forem atormentados por todo esse sofrimento terrível dentro de vocês e ao seu redor, então saberão como agir voluntariamente, sem medo, sem buscar recompensa.
Interrogante: O que deve ser assegurado primeiro, o bem-estar coletivo ou o individual?
Krishnamurti: Nós temos que considerar, não qual dessas coisas vem primeiro, mas o que é a verdadeira realização do homem. Eu digo que você saberá o que é quando a mente estiver livre das limitações que ela colocou para si mesma em sua busca por segurança. Seguir um sistema ou imitar o outro não leva à realização.
Quais são os impedimentos? O desejo de se proteger, tanto aqui quanto no além. Onde há o desejo de se proteger, há necessariamente medo, que cria muitas ilusões. Uma das ilusões é a autoridade ou compulsão de um ideal, crença ou tradição, a autoridade de memórias autoprotetoras contra o movimento da vida. O medo cria muitas limitações. Quando a mente toma consciência de uma de suas limitações, então, ao se libertar dela, o verdadeiro criador das ilusões e limitações se revela como sendo aquelas memórias autoprotetoras chamadas de “eu”. Libertar-se dessa consciência limitada é verdadeira realização. O despertar da inteligência é a garantia do bem-estar do indivíduo e, portanto, do todo.
Interrogante: Ouvi dizer que você é contra o amor? Você é?
Krishnamurti: Se eu fosse, isso seria muita estupidez. A possessividade destrói o amor, eu sou contra isso. Para ajudá-lo a possuir, você tem leis, que são chamadas de leis morais e que contam com o apoio do Estado e da religião. O amor é limitado pelo medo, que destrói sua beleza.
Interrogante: Nós somos responsáveis por nossas ações?
Krishnamurti: A maioria das pessoas preferiria não ser responsabilizada por seus atos. Afinal, quem é o responsável se você não é? O caos no mundo é causado pela ação irresponsável do indivíduo. Mas é somente através da ação consciente individual que a opressão, a exploração e o sofrimento podem ser eliminados. Nós não queremos agir profundamente porque isso implicaria conflito e sofrimento para nós mesmos, portanto tentamos fugir da responsabilidade total. Aqueles que estão sofrendo devem despertar para a plenitude de suas próprias ações.
Interrogante: Suas ideias, embora destrutivas, me atraem muito; eu as aceito e já as venho colocando em prática há algum tempo. Eu abandonei as ideias de religião, nacionalismo e posse, mas devo confessar francamente que estou atormentado por dúvidas e sinto que talvez tenha apenas trocado uma prisão por outra. Você pode me ajudar?
Krishnamurti: Qualquer pessoa que lhe diz exatamente o que fazer e lhe dá um método a seguir lhe parece positiva. Ela está apenas ajudando você a imitar, a seguir e, portanto, está realmente destruindo a inteligência e provocando negação. Se você meramente abriu mão da religião, do nacionalismo e da posse, sem ter compreendido o significado profundo e intrínseco, então certamente você caiu em outra prisão, pois espera obter algo em troca. Você está realmente buscando uma troca e, portanto, não há uma compreensão profunda que, por si só, destrói todas as prisões e limitações. Se você realmente compreendesse que a religião, o nacionalismo e a possessividade, com todo o seu significado, são venenos em si mesmos, então haveria inteligência, que é sempre livre de qualquer senso de recompensa.
Interrogante: Você é fundador de uma nova religião universal?
Krishnamurti: Se por religião você entende novos dogmas, credos, mais uma prisão para aprisionar o homem e criar ainda mais medo nele, então certamente eu não sou. Quando você perde o senso de divindade, o senso de beleza, então você se torna religioso ou se junta a uma seita religiosa. Eu desejo despertar aquela inteligência que, sozinha, pode ajudar o homem a se realizar, a viver feliz sem sofrimento. Mas depende de vocês se haverá apenas seguidores e, portanto, destruidores ou se haverá amor e união humana.
Interrogante: Você poderia nos dar sua ideia de Deus e da imortalidade da alma, ou essas coisas são meras estupidezes inventadas por homens espertos para explorar milhões de seres humanos?
Krishnamurti: Milhões são explorados porque buscam no além sua própria continuação egoísta, à qual chamam de imortalidade. Eles querem segurança no além e, portanto, criam o explorador. Você está acostumado com a ideia de que o ego, o “eu”, é algo que perdura e dura para sempre. O ego nada mais é do que uma série de memórias. O que você é? Uma forma, um nome, certos preconceitos, qualidades, esperanças e medos. (Risos) E através de tudo isso, através dessas limitações, existe algo que não é seu nem meu, algo que é eterno. Isso está sempre se tornando, é verdadeiro. Você não pode medir isso com palavras ou conhecê-lo através de explicações. Isso é para ser percebido através do processo libertador da ação. A simples investigação sobre Deus, a vida, a Verdade, ou qualquer outro nome que você queira dar, indica o desejo de escapar do presente, do conflito da ignorância. A ignorância existe quando a mente é apenas um depósito de memórias acumuladas, autoprotetoras, que é a consciência do “eu”. Essa consciência limitada impede a percepção, a realização desse devir eterno, o movimento da vida.
25 de agosto de 1935