Violência não é só matar outra pessoa. É violência usarmos palavras ferinas, fazermos um gesto para afastar uma pessoa, obedecermos por medo. Portanto, violência não é somente matança organizada em nome de Deus, em nome da sociedade ou do país. Violência é coisa muito mais sutil, mais profunda, e estamos investigando-a em toda a sua profundidade. Quando você se denomina indiano, muçulmano, cristão, europeu, ou qualquer outra coisa, está sendo violento. Sabe por que isso é violência? É porque você está se destacando do resto da humanidade. Quando você se separa por crença, por nacionalidade, por tradição, isso produz violência. Portanto, um homem que busque compreender a violência, não pertence a nenhum país, a nenhuma religião, a nenhum partido ou sistema político; ele está interessado na compreensão total da humanidade.
Liberte-se do Passado
O homem procura o tempo todo, tornar-se não violento. Então, há conflito entre “o que é” (a violência), e “o que deveria ser” (a não violência). Há conflito entre os dois. Essa é a própria essência do desperdício de energia. Enquanto houver dualidade entre “o que é” e “o que deveria ser” – o homem procurando tornar-se outra coisa, esforçando-se para alcançar “o que deveria ser” – esse conflito será desperdício de energia. Enquanto houver conflito entre os opostos, o homem não terá energia bastante para mudar. Por que devo ter o oposto – a não violência – como ideal?
O Voo da Águia
Vimos um pássaro morrendo, ferido por um homem. Ele voava com uma batida rítmica e lindamente, com liberdade e sem medo. E a arma o acertou; caiu na terra e toda a vida saiu dele. Um cão foi buscá-lo, e o homem juntou outros pássaros mortos. Ele conversava com um amigo e parecia completamente indiferente. Tudo que interessava a ele era abater muitos pássaros e para ele bastava. Estão matando no mundo todo. Aqueles maravilhosos, grandes animais do mar, as baleias, são mortas aos milhões, e o tigre e muitos outros animais estão agora se tornando espécies em extinção. O homem é o único animal a ser temido.
Krishnamurti para si mesmo, Ojai, Califórnia, terça-feira, 26 de abril de 1983.
Imagino o que queremos dizer com atitude. Por que queremos uma atitude? O que significa atitude? Assumir uma posição, chegar a uma conclusão. Tenho uma atitude em relação a alguma coisa, o que significa que cheguei a uma conclusão depois de estudar, depois de planejar, depois de examinar, depois de esquadrinhar uma questão. Cheguei a este ponto, a esta atitude, o que significa que o próprio assumir uma atitude é resistência; portanto isso em si é violência. Não podemos ter uma atitude em relação à violência ou hostilidade. Isso significa que você está interpretando-a de acordo com sua conclusão particular, fantasia, compreensão, imaginação. O que estamos dizendo: é possível olhar esta hostilidade na própria pessoa, esta entidade criadora em si mesma, esta violência, esta brutalidade em si mesmo sem qualquer atitude, olhar o fato como ele é? No momento em que você tem uma atitude, já está prejudicado, tomou um lado e, portanto, não está mais olhando, não está mais compreendendo esse fato em você mesmo. Assim, senhor, olhar para a própria pessoa sem uma atitude, sem qualquer opinião, julgamento, avaliação, é uma das tarefas mais difíceis. Neste olhar existe clareza e é essa clareza que não é uma conclusão, nem atitude, que dissipa toda esta estrutura de brutalidade e hostilidade.
Amsterdã, 5ª Palestra Pública – 22 de maio de 1968