https://jkrishnamurti.org/content/buenos-aires-4th-public-talk-22nd-july-1935

                                                                                                                               4ª Palestra em Buenos Aires

Amigos, eu não vim à Argentina para convertê-los a algum credo particular nem para incentivá-los a ingressar em alguma sociedade específica. Mas ao compreenderem o que eu vou dizer através da ação, vocês perceberão essa felicidade que nasce da inteligência, da realização. Se cada um de vocês puder viver de forma suprema, em profunda realização, então o mundo como um todo será mais rico, mais feliz. Mas a dificuldade está em viver de forma profunda. Para viver de forma profunda, você precisa descobrir por si mesmo sua própria singularidade, pois somente nela reside a realização. Somente através da nossa verdadeira realização conseguiremos resolver os inúmeros problemas sociais e econômicos. Confiar no ambiente ou em uma religião para nos guiar é criar um obstáculo perigoso para a realização.

Nesta breve conversa antes de responder às perguntas, eu quero falar sobre individualidade, verdadeira realização e examinar se as condições sociais, morais e religiosas atuais são uma ajuda real ou um obstáculo perigoso. Antes de examinarmos se as condições são perigosas ou benéficas, nós devemos compreender o que é individualidade, o que é a singularidade do indivíduo e de que maneira ele pode se realizar.

Agora vou falar de forma bem sucinta o que para mim é individualidade. Não vou usar expressões de psicologia nem um jargão complicado. Usarei palavras comuns com seus significados comuns.

A individualidade é o conjunto das memórias acumuladas e condicionadas, tanto do passado quanto do presente. Ou seja, cada indivíduo nada mais é do que uma série de memórias condicionadas, que impedem um ajustamento completo e inteligente ao presente vivo e em movimento. Essas memórias conferem a cada um a qualidade da separação, e é isso que você chama de singularidade da individualidade.

Agora, em que se baseiam essas memórias? Quais são as causas condicionantes que limitam a consciência? Se você examinar, você verá que essas memórias surgem de reações defensivas contra a vida, contra o sofrimento, contra a dor. Tendo cultivado essas reações de autoproteção e lhes dado nomes elevados e agradáveis, como moralidade, virtudes e ideais, a mente vive dentro dessa prisão de segurança, dentro dessa consciência limitada de proteção autocriada. Essas memórias, através do impacto da experiência, aumentam em força e resistência e, portanto, criam uma separação da realidade viva até que haja uma completa incompletude. Isso causa medo com suas muitas ilusões, o medo da morte e do além.

Em outras palavras, cada um tem o desejo de ter certeza, de estar seguro, e com esse desejo aborda a vida, com essa intenção busca experiências. Assim, não se compreende completamente a experiência, a própria vida. Qualquer ação nascida do desejo de segurança inevitavelmente criará incompletude. Estando incompleta, a pessoa é sempre guiada por memórias, o que aumenta ainda mais o vazio e o isolamento do seu ser. Assim, essa ação contínua da incompletude impede a realização, que é a expressão plena da vida sem o obstáculo das memórias condicionadas, do egoísmo. Ou seja, quando você aborda a vida com todas as memórias baseadas na segurança e no desejo de proteção, então qualquer ação que decorra disso inevitavelmente criará um vazio, uma incompletude e, portanto, não haverá realização nem compreensão. O significado da individualidade é que a mente, por si só, através da sua própria separação condicionada, através da compreensão profunda da sua própria limitação autocriada, deve dissolver os impedimentos e barreiras que criam a consciência limitada.

Por favor, vocês terão que refletir muito sobre isso e não apenas aceitar ou rejeitar. A mente, estando condicionada pela memória baseada na segurança, pelas chamadas virtudes, moralidades autoprotetoras, é impedida de se realizar plenamente. Compreendido isso, nós podemos descobrir se a sociedade, a moralidade e a religião ajudam o indivíduo a se libertar e a se realizar completamente.

Ou a sociedade existente, com sua moralidade e religião, é fundamentalmente verdadeira e, portanto, ajuda o indivíduo a se realizar ou se o que eu digo for verdade, então precisaremos revolucionar completamente nosso pensamento e ação. Portanto, a mudança depende do pensamento e da ação individual. Você precisa questionar se suas religiões e seus valores morais são verdadeiros. Eu digo que eles não são porque a sociedade se baseia na ganância, os valores morais na segurança, na autoproteção e a religião, que é crença organizada, fundamentalmente no medo, embora tentemos encobri-lo chamando-o de amor a Deus, amor à Verdade. Para que haja verdadeira realização não pode haver esse sentimento de possessividade ou de ganância, não pode haver esses valores morais baseados em uma segurança defensiva e egoísta nem essas religiões com suas promessas de imortalidade, que nada mais são do que outra forma de egoísmo e de medo.

Portanto, você, o indivíduo, terá que despertar para a prisão em que está mantido; e ao tomar consciência, você começará a descobrir o que é estupidez e o que é inteligência. É através da sua própria inteligência que pode haver realização, não através da aceitação da autoridade. Portanto, o que importa é o indivíduo, pois somente através da sua própria inteligência existe realização, o êxtase da vida. Isso não significa que eu esteja pregando o individualismo. Muito pelo contrário, é o sistema individualista de fé e crença religiosa, de valores morais e conduta aquisitiva que está impedindo a verdadeira realização. Portanto, vocês que estão ouvindo precisam compreender que devem se libertar dessa prisão através do seu próprio discernimento inteligente; e isso exige um estado de alerta contínuo da mente. Não pode haver seguimento de outro nem aceitação da autoridade, pois nisso há medo, e o medo destrói todo discernimento.

Pergunta: Acredito que não tenho nenhum apego, mas ainda assim não me sinto livre. É essa sensação dolorosa de estar aprisionado. O que devo fazer a respeito?

Krishnamurti: Buscamos o desapego em vez da compreensão da causa do sofrimento. Agora, quando a pessoa sofre com a possessividade, ela tenta desenvolver o oposto, que é o desapego. Em outras palavras, a pessoa se desapega para não se machucar, e esse oposto é chamado de virtude. Se alguém realmente descobrisse a causa do sofrimento, então ao compreendê-la profundamente com todo o seu ser, a mente estaria livre para viver de forma plena, completa e não cairia em outra prisão, a prisão do oposto.

Pergunta: Você também é contra organizações como ferrovias, etc.?

Krishnamurti: Eu estava me referindo àquelas organizações que criamos por causa dos nossos medos autoprotetores. Agora, a maioria das organizações no mundo se baseia na exploração, mas eu me referia especificamente às organizações de crença religiosa mundo afora.

Eu sustento que essas organizações religiosas sectárias são obstáculos reais para o homem. Aqueles de vocês que pertencem a organizações religiosas, por favor, não fiquem na defensiva quando eu digo isso, mas tentem descobrir se é verdade ou não. Se vocês descobrirem que não é assim, então é correto tê-las. Mas antes de afirmar que as organizações religiosas são necessárias é preciso examiná-las de forma imparcial. Como você vai examiná-las? Para examinar qualquer coisa objetivamente sua mente precisa ser completamente impessoal. Isso significa que você deve questionar todas as crenças, todos os ideais que você defendeu até agora ou que essas organizações oferecem. Através desse questionamento surge um conflito distinto; e somente quando há conflito é que se pode começar a compreender o significado correto das crenças organizadas. Se você apenas examiná-las intelectualmente, você nunca compreenderá a verdadeira significação delas. É por isso que a maioria das religiões proíbe seus seguidores de duvidarem. A dúvida se tornou um obstáculo religioso, um impedimento. Através do seu próprio medo, você desenvolveu certas crenças, ideais e ilusões às quais se tornou escravo, e é somente por meio do seu próprio sofrimento que você compreenderá o verdadeiro significado dessas coisas.

Pergunta: Há pessoas que, por um lado, exploram milhares de seres humanos e, por outro, doam milhões de dólares para instituições religiosas. Por quê? (Risos)

Krishnamurti: Vocês riem dessa pergunta, mas também estão envolvidos nisso. Nós exploramos, acumulamos riqueza e depois nos tornamos filantropos. Talvez alguns de vocês não tenham a esperteza implacável para acumular riqueza, mas fazem a mesma coisa de outra forma, buscando a virtude.

O que está por trás dessa falsa caridade do filantropo e dessa falsa ânsia de acumular virtudes? O filantropo, movido pelo medo e por diversas reações defensivas, deseja compensar um pouco à vítima que explorou. (Risos) E vocês o homenageiam, dizem o quão maravilhoso ele é. Isso não é caridade; é apenas egoísmo.

E por que você busca virtude e tenta acumulá-la? É uma proteção defensiva. É uma salvaguarda contra o sofrimento. Sua virtude, se você a examinar com atenção, baseia-se na ideia egoísta de afastar o sofrimento. Essa autoproteção não é virtude. Ao conhecer a si mesmo e não fugir disso através da chamada virtude, você descobrirá a beleza e a riqueza da vida.

O filantropo, através do seu desejo de segurança, se entrincheira no poder que as posses proporcionam. E o homem que busca virtude constrói ao seu redor muros de proteção contra o movimento da vida. O homem virtuoso e o filantropo são iguais; ambos têm medo da vida; não a amam.

Pergunta: Estamos felizes com nossas crenças e tradições baseadas nas doutrinas de Jesus; enquanto que em seu país, a Índia, há milhões que estão longe de serem felizes. Tudo o que você está nos dizendo, Cristo ensinou há dois mil anos. Qual a utilidade de sua pregação para nós em vez de para seus próprios compatriotas?

Krishnamurti: O pensamento não pertence a nenhuma nação nem a nenhuma etnia. (Aplausos) A realidade não é condicionada por distinções religiosas ou étnicas. E, por ter dividido o mundo entre cristãos e hindus, entre Índia e Argentina, o interrogante contribuiu para a criação de miséria e sofrimento no mundo. (Aplausos) Quando falo sobre nacionalismo na Índia, eles me dizem: “Vá para a Inglaterra e diga às pessoas de lá que o nacionalismo é estúpido, porque a Inglaterra está nos impedindo de viver”. (Risos) E quando eu venho aqui, vocês me dizem: “Vá para outro lugar e nos deixe com nossa crença e religião. Não nos perturbe.” (Risos)

Se suas próprias crenças e tradições o satisfazem, então você não ouvirá o que estou dizendo, porque suas tradições e crenças são abrigos sob os quais você se refugia em tempos de dificuldade. Você não quer encarar a vida, portanto diz: “Estou satisfeito, não me perturbe”. Se você realmente quiser compreender a Verdade e conhecer o amor, então você deve se libertar das crenças e religiões organizadas. Não pode haver “nossa religião” e “as religiões dos outros”, suas crenças e doutrinas contra as dos outros. O mundo será feliz quando não houver necessidade de pregadores, quando cada indivíduo for realmente realizado. E como ele não está, eu sinto que posso ajudá-lo em sua realização.

Se você acha que estou incomodando, causando sofrimento, então naturalmente você permanecerá na religião à qual pertence com suas explorações e ilusões; mas a vida não o deixará em paz. Nisso reside a beleza da vida. Por mais que você se proteja e se enclausure em certezas, seguranças e crenças, a onda da vida destrói toda a sua estrutura. Mas o homem que não tem apoio, que não tem segurança conhecerá a bem-aventurança da vida.

Pergunta: O que é essa memória, criada pela ação incompleta no presente, da qual você diz que devemos nos libertar?

Krishnamurti: Na breve introdução desta palestra, eu tentei explicar como as memórias, enquanto mecanismos de defesa, mutilam nosso pensamento e ação. Deixe-me dar um exemplo.

Se você foi criado como cristão com certas crenças, você aborda a vida, a experiência com essa mentalidade limitada. Naturalmente, esses preconceitos e limitações impedem que você compreenda completamente a experiência. Assim, há incompletude em seu pensamento e ação. Agora, essa barreira que cria a incompletude é o que eu chamo de memória. Essas memórias funcionam como um aviso de autodefesa, como um guia contra a vida para ajudá-lo a evitar o sofrimento. Portanto, a maioria das nossas memórias são reações de autoproteção contra a inteligência, contra a vida. Quando a mente está livre de todas essas reações, memórias de autodefesa, então há o pleno movimento da vida, da realidade.

Ou considere outro exemplo: suponha que você tenha sido criado em uma determinada classe social, com todo o esnobismo, restrições e tradições que a caracterizam. Com esse obstáculo, com essa carga, você não consegue compreender ou viver a plenitude da vida. Assim, essas memórias de autoproteção são a verdadeira causa do sofrimento. E se você deseja se libertar do sofrimento, então não pode haver esses valores de autoproteção pelos quais você busca se guiar.

Se você refletir sobre isso, se sua mente estiver consciente de suas próprias criações, então você perceberá como você estabeleceu para si mesmo guias e valores, que nada mais são do que memórias, como uma proteção contra o movimento incessante da vida. Um homem escravizado por memórias que servem de autoproteção não consegue compreender a vida nem se apaixonar por ela. Sua ação em relação à vida é de autodefesa. Sua mente está tão fechada que os movimentos rápidos da vida não conseguem penetrá-la. Ele busca a eternidade, a imortalidade longe da vida, do eterno, do imortal e, portanto, vive em uma série contínua de ilusões. Para tal homem, cuja consciência está presa às memórias, nunca poderá haver o eterno devir da vida.

Pergunta: Não há perigo em buscar a divindade ou a imortalidade? Isso não pode se tornar uma limitação?

Krishnamurti: É uma limitação cruel se você a busca, pois sua busca é apenas uma fuga da vida. Mas se você não fugir da vida, se você compreender profundamente seus conflitos, agonias e sofrimentos através da ação, então a mente se libertará de suas próprias limitações e, portanto, haverá imortalidade. A vida em si é imortal. Você está tentando encontrar a imortalidade, você não permite que ela aconteça. Um homem que tenta se apaixonar jamais conhecerá o amor. É isso que acontece com todas as pessoas que buscam a imortalidade, pois para elas a imortalidade é uma segurança, uma continuidade egoísta. Se a mente estiver livre da busca por segurança, que é muito sutil, então haverá a bem-aventurança daquela vida que é imortal.

Pergunta: Por que você ignora o problema sexual?

Krishnamurti: Eu não ignoro. Mas se você quiser compreender essa questão não tente resolvê-la separadamente, à parte dos demais problemas humanos. Eles são todos um só.

O sexo se torna um problema quando há frustração. Quando o trabalho, que deveria ser a verdadeira expressão do nosso ser, se torna meramente mecânico, estúpido e inútil, então surge a frustração; quando nossa vida emocional, que deveria ser rica e plena, é impedida pelo medo, então há frustração; quando a mente, que deveria ser alerta, flexível e ilimitada, é sobrecarregada pela tradição, memórias de autoproteção, ideais e crenças, então surge a frustração. Assim, o sexo se torna um problema muito enfatizado e não natural. Onde há realização não há problemas. Quando se está apaixonado e vulnerável, o sexo não é um problema. Para quem o sexo é mera sensação, ele se torna um problema urgente, corrói sua mente e seu coração. Você só se libertará desse problema quando, através da ação, a mente se libertar de todas as limitações autoimpostas, ilusões e medos.

Existem perguntas relacionadas à reencarnação, morte, vida após a morte, espiritualismo, mediunidade e a vários outros assuntos que são impossíveis de responder, pois meu tempo é limitado. Mas vocês podem ler algumas das coisas que eu já disse se estiverem interessados. Vocês buscam explicações, mas explicações são como pó para um homem faminto. Somente a ação desperta a mente para o discernimento. Onde há discernimento, as explicações não têm valor.

Tomem esta pergunta como exemplo: “Qual é a sua concepção de Deus?” Se você apenas se contenta com uma explicação, isso demonstra a pobreza do seu ser; mas temo que a maioria das pessoas se contente com ela. Suas religiões são baseadas em explicações, em revelações, nas experiências de outras pessoas. Portanto, qual a utilidade de eu lhe dar outra explicação ou outra crença para adicionar ao seu museu de crenças mortas? Se você refletisse profundamente sobre toda essa ideia de buscar a Deus, então perceberia que você está escapando do conflito da vida de forma sutil e astuta. Se você compreende a vida, se você capta o profundo significado de viver, então a vida em si é Deus, não alguma superinteligência distante da sua vida. Mas isso exige grande profundidade de pensamento, sem buscar satisfação ou explicação. Na própria compreensão do conflito e do sofrimento, quando toda segurança e apoio se tornam inúteis, quando você se encontra frente a frente com a vida sem quaisquer obstáculos, então há Deus.

22 de julho de 1935.