https://jkrishnamurti.org/content/valparaiso-public-talk-4th-september-1935

                                                                                                                                  Palestra em Valparaíso

Amigos, antes de entrar no assunto da minha palestra, eu gostaria de dizer que não pertenço a nenhuma organização e que vim ao Chile a convite de alguns amigos gentis. Pertencer a qualquer organização específica não ajuda a pensar com clareza. E como tem sido dito nos jornais e em outros lugares que sou teosofista e como também já me atribuíram outros rótulos, eu acho bom deixar claro que não pertenço a nenhuma seita ou sociedade. E sustento que é prejudicial forçar o pensamento a seguir um determinado caminho.

O pensamento não pertence a nenhuma nacionalidade. Ele não é do Oriente nem do Ocidente. O que é verdadeiro não pertence exclusivamente a nenhuma etnia particular. Por favor, não descarte o que eu estou dizendo como sendo comunista ou anarquista, nem diga que isso não tem relevância específica para os problemas atuais. O que eu estou dizendo deve ser compreendido pelo seu próprio valor intrínseco e não encarado como um novo sistema. Além disso, por favor, não pensem que sou meramente destrutivo. O que geralmente se chama de construtivo é a oferta de um sistema, de modo que se possa segui-lo mecanicamente, sem pensar muito.

Todos nós dizemos que deve haver uma mudança completa no mundo. Vemos tanta exploração de uma etnia por outra, de uma classe por outra, de seguidores por suas religiões, vemos tanta pobreza, miséria e, ao mesmo tempo, abundância. Vemos a doença do nacionalismo e do imperialismo se espalhando por toda parte com suas guerras, destruindo a vida humana, a sua vida, vida que deveria ser sagrada.

Portanto, vemos ao nosso redor um caos absoluto e um sofrimento intenso. Deve haver uma mudança dinâmica e universal no pensamento e no sentimento humano. Alguns dizem: “Deixe para os especialistas, deixe que eles concebam um sistema adequado e nós o seguiremos.” Outros dizem que deve haver um movimento de massa para mudar o ambiente completamente.  

Agora, se você simplesmente deixar todo o problema humano nas mãos do especialista, então você, o indivíduo, se tornará uma máquina, superficial, vazio.

Quando se fala em movimento de massa, o que se entende por “massa”? Como pode surgir, milagrosamente, um movimento de massa? Ele só pode surgir através da compreensão cuidadosa e da ação por parte do indivíduo. Para compreender esse problema humano, sem reações superficiais, devemos pensar de forma direta e simples. Ao compreendermos a Verdade, nossos problemas serão resolvidos. Os indivíduos precisam mudar fundamentalmente. Para criar um verdadeiro movimento de massa, que não explore o indivíduo, cada um de vocês precisa ser responsável em suas ações. Você não pode ser irresponsável e agir como uma máquina. A maioria de nós tem medo de pensar profundamente porque isso envolve um grande esforço, e também porque sentimos nisso um vago perigo. Mas devemos compreender as limitações às quais nossas mentes estão presas, e ao nos libertarmos delas, haverá verdadeira realização.

Cada indivíduo, de forma sutil ou grosseira, está buscando constantemente sua própria segurança. Onde existe a busca subjetiva ou objetiva por segurança, há medo. Através do medo, ele desenvolveu objetivamente um tipo de sistema. E por meio do medo se submeteu a outro objetivamente. Então, vamos compreender o significado dos sistemas que ele criou.

Este sistema objetivo se baseia essencialmente na exploração. Como o indivíduo busca sua própria segurança, a família se torna o próprio início e o centro da exploração. A família passa a significar autoperpetuação. Embora possamos dizer que amamos nossa família, essa palavra é mal-empregada, pois tal amor não passa de uma expressão de possessividade. Desse apego possessivo se desenvolvem distinções de classe e os meios de adquirir riqueza ficam protegidos nas mãos de poucos. Disso surgem diferentes nacionalidades, dividindo novamente as pessoas. Pensem em quão absurdo é dividir o mundo em classes, nacionalidades, religiões e seitas. O amor ao país é transformado em um meio de exploração que conduz ao imperialismo. E o próximo passo é a guerra, matar o homem. Objetivamente, a mente do indivíduo está presa a um sistema de exploração, que cria constante conflito, sofrimento e guerra. Essa expressão objetiva é apenas o resultado do desejo e da busca pela própria segurança.

Subjetivamente, o homem criou um sistema que ele chama de religião. Agora, as religiões, embora professem o amor, se baseiam fundamentalmente no medo. Onde há medo, há autoridade. A autoridade cria dogmas, credos e ideais. As religiões são apenas formas de crenças mortas e cristalizadas. Para administrá-las existem sacerdotes, que se tornam seus exploradores. (Aplausos)

Receio que vocês concordem com muita facilidade, mas são vocês os criadores dos exploradores. Você anseia por segurança e se agarra à garantia de sua própria continuidade. Meramente escapar desse desejo por meio de alguma atividade não significa que você esteja liberto desse anseio sutil e egoísta.

Portanto, você tem, no mundo objetivo, um sistema que impede implacavelmente a realização de cada indivíduo. E, no mundo subjetivo, um sistema organizado que, através da autoridade, dogmas, crenças e medo, destrói o discernimento individual da realidade, da Verdade. A ação nascida dessa busca subjetiva e objetiva por segurança cria continuamente limitações, gerando frustração. Não há completude, realização.

O bem-estar da humanidade só poderá existir quando cada indivíduo se realizar verdadeiramente. Para concretizar a realização individual, vocês, que agora são apenas muitas reações repetitivas, engrenagens de uma máquina social e religiosa, precisam se tornar indivíduos através do questionamento de todos os valores morais, sociais e religiosos, e descobrir por si mesmos, sem seguir nenhuma pessoa ou sistema particular, o verdadeiro significado deles. Assim, você perceberá que esses valores se baseiam fundamentalmente no egoísmo. A mera imitação de valores, cujo significado profundo você não compreendeu, leva à frustração. Em vez de esperar por uma mudança milagrosa, por um movimento de massa, você, como indivíduo, deve despertar. Você precisa entrar em conflito com aqueles valores que você estabeleceu através do seu desejo de segurança.

Você só faz isso quando há sofrimento. Agora, a maioria de vocês deseja evitar conflitos, sofrimento; portanto preferem examinar os valores intelectualmente, sentados confortavelmente. Você diz que é preciso haver um despertar em massa, um movimento de massa para mudar o ambiente. Assim, você transfere a responsabilidade da ação para essa coisa vaga chamada “massa”, e o homem continua sofrendo. Você garante para si mesmo um canto seguro, e de forma astuta e enganosa o chama de moral e, portanto, contribui para o caos e o sofrimento. Nisso não há felicidade, inteligência ou realização, mas apenas medo e sofrimento. Despertem para tudo isso, cada um de vocês, e mudem o rumo de seus pensamentos e ações.

Interrogante: Você acha que a Liga das Nações conseguirá evitar uma nova guerra mundial?

Krishnamurti: Como pode haver a cessação das guerras enquanto existirem divisões de nacionalidades e governos soberanos? Como as guerras podem ser impedidas quando há divisões de classe, exploração, quando cada um busca sua própria segurança individual e cria medo? Não pode haver paz no mundo se, subjetivamente, cada um de vocês estiver em guerra. Para instaurar a verdadeira paz no mundo, de modo que o ser humano não seja massacrado em nome de um ideal chamado prestígio nacional, honra, que são apenas interesses escusos, você, como indivíduo, deve se libertar da possessividade. Enquanto isso existir, haverá conflito e miséria. Portanto, não busque um sistema para resolver o sofrimento humano, mas se torne inteligente. Jogue fora todas as estupidezes que agora oprimem a mente e pense de forma nova, simples e direta sobre guerras, exploração e possessividade. Assim, você não precisa esperar que os governos, que atualmente não passam de expressões de interesses escusos, alterem as condições absurdas e cruéis do mundo.

Interrogante: O divórcio pode ser uma solução para o problema sexual?

Krishnamurti: Para compreender esse problema, nós não devemos abordá-lo isoladamente. Se desejamos compreender qualquer problema, nós devemos considerá-lo de forma abrangente, como um todo, não de maneira separada, exclusiva.

Afinal, por que deveria haver esse problema? Se você examiná-lo profundamente, você verá que sua energia criativa, através do medo, é impedida, limitada pela autoridade, pela compulsão. A mente e o coração são impedidos de viver profundamente pelo medo, pelo que se chama de moralidade, que se baseia na segurança egoísta. Assim, o sexo se torna um problema avassalador, porque ele é apenas sensação, não tem amor. Se você deseja liberar a energia criativa do pensamento e da emoção e, portanto, resolver esse problema do sexo, então a mente deve se libertar do ego, dos obstáculos impostos e ilusões. Para viver de forma feliz e inteligente, a mente deve estar livre do medo. A partir desse despertar surge a bem-aventurança do amor, no qual não há possessividade. Esse problema do sexo surge quando o amor é destruído pelo medo, ciúme, possessividade.

Interrogante: As igrejas não são úteis para a elevação moral do homem?

Krishnamurti: Agora, o que é moralidade atualmente? Quando você compreende profundamente o significado da moralidade existente e se liberta de suas limitações egoístas, egocêntricas, então há inteligência, que é verdadeiramente moral. A verdadeira moralidade não se baseia no medo e, portanto, é livre de compulsão. A moralidade existente, embora professe o amor e sentimentos nobres, se baseia na segurança egoísta e na possessividade. Você quer que essa moralidade seja mantida? As igrejas são construídas através do seu próprio medo, através do seu desejo de continuidade egoísta. A moralidade da religião e dos negócios nasce de uma profunda segurança egoísta e, portanto, ela não é moral. Você deve mudar radicalmente sua atitude em relação à moralidade. As igrejas e outras organizações não podem ajudá-lo, pois elas mesmas se fundamentam na estupidez e na possessividade do homem.

Como pode haver verdadeira moralidade se os governos e as igrejas de todo o mundo homenageiam aquelas pessoas que são as expressões máximas da ganância? Toda essa estrutura da moralidade é sustentada por você e, portanto, somente você, através de seus próprios pensamentos e ações, pode alterá-la radicalmente e dar origem à verdadeira moralidade, à verdadeira inteligência.

Interrogante: Existe vida além do túmulo? Que significado a morte tem para você?

Krishnamurti: Por que você está preocupado com o além? Porque viver aqui perdeu o significado profundo; não há realização neste mundo, nem amor duradouro, mas apenas conflito e sofrimento. Portanto, você espera por um mundo, o além, no qual você possa viver feliz, plenamente. Como você não teve a oportunidade de se realizar aqui, você espera conseguir se realizar em outra vida. Ou você deseja reencontrar aqueles que perdeu pela morte, o que apenas revela o seu próprio vazio. Se eu disser que existe vida após a morte e outro disser que não, você escolherá aquele que lhe proporcionar maior satisfação e, portanto, se tornará escravo da autoridade. Portanto, o problema não é se existe vida além do túmulo, mas compreender aqui a plenitude da vida, que é eterna, libertando a ação de criar limitações.

Para o homem que realiza, que não se separou do movimento da realidade, não há morte. Como se pode viver de modo que a ação seja realização? Como se pode ser apaixonado pela vida? Para ser apaixonado pela vida, se realizar, a mente deve estar livre, através da compreensão profunda, daquelas limitações que a impedem e a frustram. Você deve se tornar ciente, consciente de todos os obstáculos que residem no inconsciente da mente. Existe, dentro de cada um, o inconsciente, que continuamente impede, perverte a inteligência. Esse inconsciente torna a vida incompleta. Através da ação, do viver, do sofrimento, você deve trazer à tona todas aquelas coisas que estão ocultas, escondidas. Quando a mente não está ocupada, através do medo, com o além, mas está plenamente consciente, ciente do presente com o seu profundo significado, então há o movimento da realidade, da vida que não é sua nem minha.

Interrogante: O que você diz pode ser útil para o homem educado, mas não levará o não educado ao caos?

Krishnamurti: Agora, é muito difícil dizer quem é educado e quem não é. (Risos) Você pode ler muitos livros, ter muitos companheiros, pertencer a diferentes clubes, ter muito dinheiro e, ainda assim, ser muito ignorante.

Quando você se preocupa com o não educado, isso geralmente indica que há medo, o receio de ser perturbado ou desalojado de suas conquistas. Assim, você diz que haverá desordem e caos. Como se não houvesse caos e sofrimento no mundo agora. Não se preocupe com os não educados, mas veja se suas ações são inteligentes e desprovidas de medo, pois só isso criará o ambiente certo. Mas se, sem compreensão, você apenas se preocupar com os não educados, então você se tornará um sacerdote, um explorador. Se vocês, que supostamente são educados e que dispõem de tempo livre, não forem totalmente responsáveis em suas ações, então haverá mais caos, miséria e sofrimento.

Interrogante: Em momentos de grande vazio, quando se pensa na inutilidade da própria existência, a pessoa busca o oposto, ou seja, ser útil aos outros. Isso não é uma fuga do conflito? O que devo fazer nesses momentos? Eles geralmente ocorrem depois de ouvir suas palestras e surgem como um sentimento de remorso. O que você pensa sobre tudo isso?

Krishnamurti: Se você apenas reage à minha palestra e não compreende profundamente minhas palavras através da ação, da vida, então você apenas fica consciente do seu próprio vazio e da sua própria superficialidade e, portanto, você pensa que deve desenvolver o oposto, o que é apenas uma fuga. Através da ação, que não é uma fuga por meio da atividade, esse vazio dá lugar à realização. Não se preocupe com essa infelicidade, superficialidade, mas quando a mente se libertar das limitações que ela mesma impõe, então surgirá uma completude rica.

4 de setembro de 1935