https://jkrishnamurti.org/content/national-college-la-plata-argentina-public-talk-2nd-august-1935
Palestra no National College, La Plata
Amigos, para a maioria de nós, a profissão é separada da nossa vida pessoal. Existe o mundo da profissão e da técnica, e a vida dos sentimentos sutis, ideias, medos e amor. Somos treinados para um mundo profissional e, apenas ocasionalmente, em meio a esse treinamento e obrigação, nós ouvimos os sussurros vagos da realidade. O mundo profissional tornou-se gradualmente opressor e exigente, consumindo quase todo o nosso tempo, de modo que há pouca oportunidade para pensamento profundo e emoções. E assim a vida real, a vida feliz se torna cada vez mais vaga e se distancia cada vez mais. Assim, levamos uma vida dupla: a vida da profissão, do trabalho, e a vida dos desejos, sentimentos e esperanças sutis.
Essa divisão entre o mundo da profissão e o mundo da simpatia, do amor e das movimentações profundas dos pensamentos é um obstáculo fatal para a realização do ser humano. Como na vida da maioria das pessoas existe essa separação, vamos investigar se não podemos transpor esse abismo destrutivo.
Com raras exceções, seguir uma profissão específica não é a expressão natural de um indivíduo; não é realização ou expressão completa de todo o seu ser. Se você examinar isso, você verá que não passa de um treinamento cuidadoso do indivíduo para que ele se ajuste a um sistema rígido e inflexível. Esse sistema é baseado no medo, na ganância e na exploração. Nós precisamos descobrir através de questionamentos profundos e sinceros, não superficiais, se esse sistema ao qual os indivíduos são forçados a se ajustar é realmente capaz de libertar a inteligência humana e, portanto, promover sua realização. Se esse sistema é capaz de realmente libertar o indivíduo para uma realização profunda, que não é mera autoexpressão egoísta, então devemos dar todo o nosso apoio a ele. Portanto, devemos olhar para toda a base desse sistema e não nos deixarmos levar por seus efeitos superficiais.
Para um homem treinado para uma profissão específica é muito difícil perceber que esse sistema se baseia no medo, na ganância e na exploração. A mente dele já está voltada para o interesse próprio, portanto ele é incapaz de agir verdadeiramente em relação a esse sistema de medo. Tomemos como exemplo um homem treinado para o exército ou marinha; ele é incapaz de perceber que as forças armadas inevitavelmente criam guerras. Ou considere um homem cuja mente está distorcida por uma crença religiosa particular; ele é incapaz de discernir que a religião, enquanto crença organizada, envenena todo o seu ser. Portanto, cada profissão cria uma mentalidade particular, o que impede a compreensão completa do homem integrado.
Como a maioria de nós está sendo treinada, ou já foi treinada, para se encaixar em um padrão específico, nós não conseguimos enxergar a enorme importância de considerar os diversos problemas humanos como um todo, em vez de dividi-los em várias categorias. Como fomos treinados e moldados, nós devemos nos libertar do molde e repensar, agir de forma nova para compreender a vida como um todo. Isso exige que cada indivíduo se liberte do medo através do sofrimento. Embora existam muitas formas de medo, sejam elas sociais, econômicas ou religiosas, há apenas uma causa, que é a busca por segurança. Quando destruirmos individualmente as paredes e modelos que a mente criou para se proteger, gerando assim medo, então surgirá a verdadeira inteligência, que trará ordem e felicidade a este mundo de caos e sofrimento.
De um lado, há o molde da religião, que impede e frustra o despertar da inteligência individual e, do outro, os interesses estabelecidos da sociedade e da profissão. Nesses moldes de interesses constituídos, o indivíduo é treinado à força, de forma cruel sem levar em consideração sua realização individual. Assim, o indivíduo é compelido a dividir a vida em profissão, como meio de subsistência, com todas as suas estupidezes e explorações; e esperanças, medos e ilusões subjetivas, com todas as suas complexidades e frustrações. Dessa separação nasce o conflito, que sempre impede a realização individual. A condição caótica atual é o resultado e a expressão desse conflito e compulsão contínuos do indivíduo.
A mente deve se libertar das várias compulsões, autoridades que ela criou para si mesma através do medo e, portanto, despertar aquela inteligência que é única e não individualista. Somente essa inteligência pode trazer a verdadeira realização ao homem.
Essa inteligência é despertada através do questionamento contínuo dos valores aos quais a mente se acostumou, aos quais ela está constantemente se ajustando. Para despertar essa inteligência, a individualidade é de grande importância. Se você seguir cegamente um padrão estabelecido, então você não estará mais despertando a inteligência, mas apenas se conformando, se ajustando a um ideal, a um sistema através do medo.
O despertar dessa inteligência é uma tarefa muito difícil e árdua, pois a mente é tão medrosa que está sempre criando abrigos para se proteger. Um homem que deseja despertar essa inteligência deve estar supremamente alerta, sempre atento para não escapar para uma ilusão; pois quando se começa a questionar esses padrões e valores, surgem conflitos e sofrimento. Para fugir desse sofrimento, a mente começa a criar outro conjunto de valores, entrando na limitação de uma nova prisão. Assim, ela se desloca de uma prisão para outra pensando que está vivendo, evoluindo.
O despertar dessa inteligência destrói a falsa divisão da vida entre profissão, ou necessidade exterior, e o retraimento interno da frustração para a ilusão, e traz a completude da ação. Portanto, somente através da inteligência pode haver verdadeira realização e felicidade para o homem.
Interrogante: Qual é o seu pensamento em relação à universidade e ao ensino organizado oficial?
Krishnamurti: Para que o indivíduo é treinado pela universidade? O que ela chama de educação? Ele está sendo treinado para lutar por si mesmo e, assim, se encaixar em um sistema de exploração. Tal treinamento inevitavelmente cria confusão e sofrimento no mundo. Você está sendo treinado para determinadas profissões dentro de um sistema de exploração, goste você do sistema ou não. Ora, esse sistema é fundamentalmente baseado no medo aquisitivo e, portanto, há a criação, em cada indivíduo, daquelas barreiras que vão separá-lo e protegê-lo dos outros.
Tomemos, por exemplo, a história de qualquer país. Nela, você encontrará os heróis, os soldados daquele país em particular, sendo louvados. Lá você encontrará o estímulo do egoísmo étnico, do poder, da honra e do prestígio; o que nada mais indica do que estupidez, estreiteza e limitação. Assim, gradualmente, o espírito do nacionalismo é incutido. Através dos jornais, livros e do agitar das bandeiras, nós somos treinados para aceitar o nacionalismo como uma realidade para que possamos ser explorados. (Aplausos) E, novamente, vejamos a religião. Por ser baseada no medo, ela destrói o amor, cria ilusões e separa as pessoas. E para encobrir esse medo, você diz que é o amor por Deus. (Aplausos)
Portanto, a educação passou a ser mera conformidade a um sistema particular; em vez de despertar a inteligência do indivíduo, ela apenas o obriga a se conformar, impedindo assim sua verdadeira moralidade e realização.
Interrogante: Você acha que as leis e o sistema atuais, baseados no egoísmo e no desejo de segurança individual, podem algum dia ajudar as pessoas a terem uma vida melhor e mais feliz?
Krishnamurti: Por que me fazem essa pergunta? O próprio interrogante não percebe que essas coisas impedem os seres humanos de viverem plenamente? Se ele percebe, qual é sua ação individual em relação a toda essa estrutura? Estar meramente em revolta é comparativamente inútil, mas libertar-se individualmente através da própria ação libera a inteligência criativa e, portanto, a felicidade da vida. Isso significa que você mesmo deve ser responsável e não esperar que algum grupo coletivo mude o ambiente. Se cada um de vocês sentisse verdadeiramente a necessidade da realização individual, então vocês estariam continuamente destruindo a cristalização da autoridade e da compulsão que o homem busca e à qual se apega para seu conforto e segurança.
Interrogante: Dizem que você é contra todos os tipos de autoridade. Você quer dizer que não há necessidade de algum tipo de autoridade na família ou na escola?
Krishnamurti: A questão de se a autoridade deve ou não existir em uma escola ou família será respondida quando você mesmo compreender todo o significado da autoridade.
Agora, o que quero dizer com autoridade é a conformidade, através do medo, a um padrão particular, seja do ambiente, da tradição, de um ideal ou da memória. Considere a religião como ela é. Lá você verá que, por meio da fé e da crença, o homem está preso na autoridade, porque cada um busca sua própria segurança através do que chama de imortalidade. Isso nada mais é do que um desejo de continuidade egoísta; e o homem que afirma existir imortalidade garante sua segurança. (Risos) Assim, gradualmente, através do medo, ele passa a aceitar a autoridade, a autoridade das ameaças religiosas, dos medos, das superstições, das esperanças e das crenças. Ou ele rejeita as autoridades externas e desenvolve seus próprios ideais pessoais, que se tornam suas autoridades, agarrando-se a eles na esperança de não ser ferido pela vida. Assim, a autoridade se torna o meio de autodefesa contra a vida, contra a inteligência.
Quando você compreende esse profundo significado da autoridade, então não há caos, mas sim o despertar da inteligência. Enquanto houver medo, haverá formas sutis de autoridade e ideais aos quais cada um se submete para fugir do sofrimento. Assim, através do medo, cada um cria exploradores. Onde há autoridade, compulsão não pode haver inteligência, que é a única capaz de promover verdadeira cooperação.
Interrogante: Como poderia a liberdade do mundo ocidental ser organizada de acordo com a sensibilidade oriental?
Krishnamurti: Receio não ter entendido bem a pergunta. Para a maioria das pessoas, o Oriente é algo misterioso e espiritual. Mas os orientais são pessoas como vocês; como vocês eles sofrem, exploram, têm medos, anseios espirituais e muitas ilusões. O Oriente tem costumes e hábitos superficiais diferentes, mas fundamentalmente somos todos iguais, sejamos do Ocidente ou do Oriente. Algumas raras pessoas do Oriente dedicaram-se à educação de si mesmo, à descoberta do verdadeiro significado da vida e da morte, da ilusão e da realidade. A maioria das pessoas tem uma visão romântica da Índia, mas eu não vou dar uma palestra sobre esse país. Por favor, não tentem se ajustar a uma terra supostamente espiritual, como o Oriente, mas tomem consciência da prisão na qual vocês se mantêm. Ao compreender como ela é criada, e ao discernir seu verdadeiro significado, a mente se libertará do medo e da ilusão.
Interrogante: Qual deve ser a atitude da sociedade em relação aos criminosos?
Krishnamurti: Tudo depende de quem você chama de criminoso. (Risos, aplausos) Um homem que rouba por não conseguir evitar deve ser cuidado e tratado como cleptomaníaco. O homem que rouba por fome também é chamado de criminoso, pois tira algo daqueles que têm. É o sistema que o faz passar fome, passar necessidade, e é o sistema que o transforma em criminoso. Em vez de alterarmos o sistema, nós forçamos o chamado criminoso a ir para a prisão. Há também o homem que, com suas ideias, perturba os interesses estabelecidos da religião ou do poder mundano. Você também o chama de criminoso perigoso e se livra dele.
Agora, depende da maneira como você olha a vida para decidir quem você considera um criminoso. Se você é aquisitivo, possessivo e alguém lhe diz que a aquisição leva à exploração, ao sofrimento e à crueldade, então você chama essa pessoa de criminosa ou de idealista. Como você não consegue enxergar a grandeza e a praticidade da não aquisição, do não apego, você pensa que ela é uma perturbadora da paz. Eu digo que você pode viver no mundo, onde existe essa contínua ganância e exploração, sem se apegar ou ser possessivo.
Interrogante: Muitos de nós estamos conscientes e participamos dessa vida corrupta ao nosso redor. O que podemos fazer para nos libertar de seus efeitos sufocantes?
Krishnamurti: Você pode estar intelectualmente consciente e, portanto, não haverá ação. Mas se você estiver consciente com todo o seu ser, então haverá ação, e somente ela libertará a mente da corrupção. Se você tem apenas consciência intelectual, então você faz uma pergunta como essa. E você diz: “Diga-me como agir”, o que significa: “Dê-me um sistema, um método a seguir para que eu possa escapar daquela ação que necessita sofrimento”. Devido a essa demanda, as pessoas criaram exploradores em todo o mundo.
Se você está verdadeiramente consciente, com todo o seu ser, de que algo em particular é um obstáculo, um veneno, então você se liberta completamente disso. Se você tem consciência da presença de uma cobra no quarto – e essa consciência geralmente é aguçada, pois envolve medo – você jamais pergunta a outra pessoa como se livrar da cobra. (Risos) Da mesma forma, se você estiver completamente, profundamente consciente, por exemplo, do nacionalismo, ou de qualquer outra limitação, então você não perguntará como se livrar dele; você discernirá por si mesmo sua completa estupidez. Se você estiver totalmente consciente de que a aceitação da autoridade na religião e na política destrói a inteligência, então você, como indivíduo, libertará a mente de todas as estupidezes e pompa da religião e da política. (Aplausos) Se vocês realmente sentissem tudo isso, então não apenas aplaudiriam, mas também agiriam individualmente.
A mente impôs a si mesma muitos obstáculos através do seu próprio desejo de segurança. Esses obstáculos impedem a inteligência e, portanto, a completa realização do homem. Se eu oferecesse um novo sistema, isso seria apenas uma substituição que não faria você pensar de maneira nova, desde o início. Mas se você se conscientizar de como você está criando muitas limitações através do medo, e se libertar delas, então haverá para você uma vida de rica beleza, de eterno devir.
É muita gentileza da parte de vocês, senhores, terem me convidado, e agradeço por me ouvirem.
2 de agosto de 1935